Perfeccionismo: O que é e como pode afetar a saúde mental
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O perfeccionismo nunca esteve tão presente nas nossas vidas. Como o próprio nome sugere, é a busca incessante em atingir a perfeição em uma tarefa ou objetivo.
Com o peso das redes sociais nas rotinas, esse desejo se torna mais forte, porque desperta a comparação. No virtual, a vida das pessoas parece ser melhor do que as nossas, impressão que traz o sentimento de frustração e, muitas vezes, a necessidade de se superar. Aí que mora o perigo: não é errado querer evoluir e ter ambições, mas sim a forma como você encara o processo para conquistar suas metas e aspirações.
Perfeccionismo na prática
O perfeccionismo pode começar na infância, com algumas situações aparentemente inocentes. Imagine um aluno que se dedica aos estudos com afinco, entrega todos os trabalhos, recebe a nota das provas e se depara com um 9. Uma nota boa, mas que é recebida com decepção por esse aluno, que acredita que poderia ter se esforçado mais.
As duas palavras conjugadas no futuro do pretérito – “poderia” e “deveria” a imperam os pensamentos da mente perfeccionista, que nunca está satisfeita com as situações do momento. Essa forma de lidar com as coisas traz como consequência a forte exigência sobre si próprio, com cobranças excessivas para se destacar e não decepcionar. E se isso ocorre, é como se tivesse fracassado.
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Os riscos do perfeccionismo
Embora seja uma característica muito benquista no mundo corporativo – um funcionário perfeccionista se empenha em entregar a melhor ideia, o resultado mais expressivo – não é uma qualidade boa se for levada ao extremo. Afinal, existe uma linha tênue entre perfeccionismo e dedicação em entregar o seu melhor. Embora sejam muito parecidos, dedicar-se a algo envolve limites saudáveis, com o bom senso do que é possível e o que não é.
O perfeccionista tem muito a perder porque:
- É duro demais consigo próprio a ponto de não celebrar as realizações. Nunca será o suficiente.
- A necessidade de executar todas as atividades com tamanha perfeição pode atrapalhar a rotina. O fato de nunca nada estar bom o bastante pode paralisar a tomada de decisões importantes, porque o momento ideal sempre está longe de acontecer. Além disso, pode levar à repetição de tarefas para que se alcance o que o perfeccionista considera ideal. Então, a qualidade antes estimada no ambiente profissional pode jogar contra a produtividade do indíviduo.
- Esse traço da personalidade pode gerar estresse e ansiedade, que levam a distúrbios mais preocupantes, como a depressão.
- O perfeccionismo é uma forma de se depreciar, de não honrar seus próprios méritos, que causa problemas de autoestima e insegurança.
- Pode impedir o convívio em harmonia com colegas de trabalho e pessoas do círculo social, que se sentem intimidadas ou constrangidas, porque o perfeccionista é um duro crítico do trabalho e atitude dos outros que o cercam.
- Causa problemas de projeção sobre pessoas próximas. Um exemplo é de pais perfeccionistas, que impõem uma carga de responsabilidade e excelência muito pesada sobre os filhos. Essa pressão sobre as crianças gera o risco de uma geração de novos perfeccionistas, que poderão repetir o mesmo padrão sobre seus sucessores.
Como ser menos perfeccionista?
O perfeccionismo é um traço da personalidade, ou seja, faz parte da pessoa, que em algum momento da vida passou a adotar esse comportamento, seja em sua criação familiar, de amigos e trabalho.
Hoje, é comum ser vítima do perfeccionismo porque a sociedade incentiva esse comportamento – como já dito, as redes sociais, televisão, mídia – tudo conspira para que as pessoas busquem suas melhores versões, que se refletem no excesso: tem que treinar mais para ter o corpo perfeito, estudar mais para ser o número 1 na faculdade, trabalhar mais para ser promovido logo.
O fato é que a perfeição não existe, é apenas um ideal que habita o imaginário, porque o conceito do “perfeito” é relativo. Por isso, se você percebe que o perfeccionismo atrapalha sua vida, ou ouve com frequência de pessoas próximas que seu comportamento é prejudicial para si próprio, busque ajuda profissional.
Fazer terapia e buscar conforto no diálogo com um psicólogo é fundamental para auxiliar a quebrar esse padrão de comportamento e a identificar as origens da busca pela perfeição.
Com o apoio profissional, o perfeccionista aprende a se observar com menos julgamentos e a abraçar suas imperfeições e falhas. E, principalmente, com o tempo, aprende a reconhecer as próprias conquistas e a traçar objetivos com mais leveza.
Dr. Yuri Busin – psicólogo, doutor em neurociência do comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Diretor do Centro de Atenção à Saúde Mental – Equilíbrio (CASME).